quarta-feira, 25 de novembro de 2009

E aí a velha chama vai reacender...

Eu ia postar esse texto só quando o livro do 3° ano fosse publicado, e foi o que aconteceu ontem. É diferente do que já foi escrito por aqui, mas não deixa de ser eu, meu texto, portanto sempre tem algo pessoal. E como estou sem inspiração pra nada novo, falar de si é sempre mais fácil do que dos outros.
Lembrando que eu não vou ganhar dinheiro com esse livo, é só uma publicação que acontece todo ano no Marista, que os alunos do 3° ano fazem um texto representando sua passada pela escola. Bem, espero que tenha ficado bom.

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É muito pouco falar sobre o Pio X em apenas duas páginas. O tanto que este colégio me proporcionou daria um livro inteiro, digno de páginas incontáveis, e ainda assim faltaria alguma coisa. Posso não ser uma daquelas alunas que viveram décadas nesta escola, mas com certeza tenho histórias para contar aos meus netinhos dos três anos de ensino médio que passei aqui.

Lembro de ter entrado no Pio X já com amizade garantida – uma amiga minha de tempos passados também estudava lá e estava na mesma sala que eu. Assim, seguindo o tom extrovertido e vivaz dela, ficou mais fácil conhecer o resto das pessoas. Em pouco tempo, eu já tinha intervalos animadíssimos, regado a música, trufas e muita, muita risada. Era o começo das grandes amizades construídas até hoje.

Os meses foram passando e cada dia parecia ser uma experiência nova, um brilho a mais nos olhos de cada um. O 1°D ficou conhecido, no começo por sua quietude, depois por seus excessos. Fomos do oito ao oitenta, e assim ficamos tão unidos, que fomos capazes de vencer concursos culturais e peças de História. Tudo com esforço e muito estresse. Mas que valeu as recompensas finais.

Algo no primeiro ano me dizia que aquilo não era por acaso. Não fora por acaso que eu entrara naquela escola, e mudara completamente meu círculo social, minha rotina, até mesmo meu comportamento e muitas das minhas opiniões. Não fora por acaso que tanta gente especial cruzou meu caminho, e ajudou a construir a minha história pelo Marista. Tinha que ser destino.

Porém, eu que achava que essa chama acesa de magia do primeiro ano ia durar para sempre, no segundo mudou totalmente. Mas, de novo o destino me pegou e me fez conhecer a outra metade da laranja – ou melhor, da sala. É incrível como o lugar na sala faz diferença, e como pessoas totalmente diferentes convivem no mesmo espaço. O meu segundo ano resumiu-se a um altão magrelo com idéias de mudar o mundo e uma pequena saltitante feita de porcelana e carisma. Acho que já me acostumei tanto a tê-los por perto que não consigo enxergar meu futuro sem os dois. E sem mais alguns, que vieram com o terceiro ano.

É neste ano que chega a época do “ahh, que saudade”. É o ano, também, que tudo passa mais rápido do que você consegue contar, e se você não aproveitar tudo a tempo, acaba perdendo momentos inesquecíveis. Quando menos espera, já chega o fim do ano e o que você menos quer é deixar tudo aquilo para trás.

Eu não esperava que o terceiro ano me proporcionasse tantas surpresas. Ao me aproximar de pessoas tão diferentes, me vi tendo de enfrentar obstáculos quase intransponíveis para encontrar ouro. Mas valeu à pena: hoje não sei o que seria de mim se não fosse os dois garotos mais engraçados da escola, a porcelana saltitante, um garoto que traz nas costas um futuro brilhante, e a garota mais complexa e inesperada (talvez) do universo.

Não excluo, assim, as amizades de longa data que construí no primeiro ano. Essas, do contrário, ficam cada dia mais forte – e eu sei que com muitos eu vou poder contar, em qualquer situação que estiver. Acho que agora posso ter certeza de que, sim, eu tenho amigos de verdade. E mesmo que o tempo nos afaste, o que é um mal inevitável, a qualquer hora que nos reencontrarmos, seja em alguma cafeteria de Londres ou na praia de Tambaú, a chama nos olhos de cada um vai reacender. E eu vou ter certeza: aquilo só pode ser amizade.

Amanhã vai ser um novo dia, e o futuro nos espera. Um futuro que só pode ser descrito como página em branco: você não sabe o que vai lhe acontecer quando colocar, definitivamente, os pés para fora da escola e não mais voltar para assistir uma aula. Pode até voltar para visitas, como muitos ex-alunos, mas não será a mesma coisa de vestir a farda de manhã e sair de casa perguntando-se de quem será a primeira aula.  O tempo é cruel, e ninguém sabe mesmo o que pode nos acontecer daqui para frente.

Estamos à deriva de tudo.

No entanto, não sei se estou naquela fase nostálgica de “não querer sair da escola”. Do contrário, estou com o lápis na mão e as idéias na cabeça prontas para começar a escrever neste papel branco, só estou esperando a Grande Decisão Do Ano: o chamado Vestibular.

Enquanto isso não acontece, a gente vai aproveitando cada momento ao lado de quem ama, sempre contando com a velha esperança que eles não vão nos deixar nem tão cedo – e se vão, a gente também espera que eles reapareçam lá pela metade da Página Branca Chamada Futuro. E aí aquela velha chama nos olhos vai reacender...

Jéssica Maria Brasileiro de Figueiredo – 3° C

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Adultos

Quando eu era pequena achava que os adultos não tinham sentimentos. Eles não se apaixonavam, não namoravam, não riam nem tinham orgasmos. Aliás, quando primeiramente descobri o que era sexo, foi vendo os filmes na televisão, e sempre achei que só os homens tinham orgasmos. As mulheres só serviam de tipo "porto seguro", um lugar quentinho para colocar o órgão de reprodução masculina. Por isso que as mulheres engravidavam e os homens não - afinal, eram eles que colocavam o bebê lá dentro. Bem, enfim, eu achava que adultos não sentiam nada - só viviam para trabalhar, sustentar os filhos e dormir. E colocar bebês nas barrigas das mulheres.

Afinal, como eu podia ser tão intensa, sentir tudo a minha volta, agir muito mais instintivamente e emocionalmente do que de modo racional, e ninguém mais ser assim? A minha mãe era tão fria, eu sempre voltava pra casa chorando por causa de um olhar, uma risada, um tapa, qualquer coisinha. E ela sempre ficava naquela seriedade toda. Não sentia nada. Então passei a ver que o "adulto" era algo muito acima da minha concepção, algo técnico, como matemática, frio, exato, apenas números escritos no papel que era o mundo. No final, aquilo só aumentava a minha intensidade, porque eu tentava me prender mas não conseguia. Então voltava pra casa chorando e mamãe só ficava lá, calada, fria, impassível.

E também não entendia porque eles sempre se controlavam. Eu sempre estava fervilhando, com os sentimentos à mostra, para todo mundo ver. Eu era transparente. Mas os adultos não. Eles sempre estava lá, escondidos, empacotados em suas roupas grandes demais, em seus paletós e caras sérias. Ninguém sorria. E eu voltava para casa derramando lágrimas enquanto lá fora os pais dos meus vizinhos os recolhiam, com caras impassíveis, cansadas ou apenas adultas.

Até que comecei a assistir mais filmes que diziam isso. Os adultos nada mais eram que impassíveis, apenas vivendo no mundo para fazer o dinheiro circular. Apenas trabalhando, saindo cedo e chegando tarde, sem dar o mínimo de atenção ao que lhes rodeava. Acho que por isso que nunca fui consumista, de entrar num shopping e comprar horrores só para me sentir melhor (conheço pessoas assim e nunca entendi como é que isso lhes faz tão bem). Eu não comprava para me sentir melhor porque eu achava que estaria sendo igual aos adultos que eu conhecia, ou pensava que conhecia, ou analisava - mesmo que não lembre de nada. Eu achava que estava sendo igualzinha a eles, somente gastando o dinheiro que consegui com o meu trabalho. Nada mais. Nenhum sentimento, nenhum apego, nada.

Demorei para entender que, no final das contas, as pessoas só estão fugindo de si mesmas e por isso fingem que são cultas e frias, para não ter de se apegarem a ninguém por saber que, a qualquer momento, aquela pessoa pode ir embora. Ou pode lhe trazer problemas piores. Então, se apegam as coisas, ao material, às compras, só porque supostamente demoram mais para acabar. Trabalham para ganhar. E vivem para gastar. Mal sabem que elas próprias tem fim, e até mesmo uma coisa comprada num shopping pode lhes trazer problemas ou acabar.

No final, todos nós só precisamos de uma dose de amor, de intensidade, aquela mesma que eu destilava tanto nos meus choros quando era criança. E ainda destilo, vez por outra, com mais frequência do que eu queria.

A gente só precisa de amor. Ou um livro gostoso num fim de tarde chuvoso. Ou um filme de terror.

No final, é tudo sobre o amor. E estão todos correndo, se escondendo, fugindo dele.

(e eu nunca vou entender o porquê)