domingo, 6 de dezembro de 2015

Falta Tempo


Por que parei de escrever contos literários? Por que doei minhas habilidades ao mercado, caindo nos padrões e formatos da indústria, usando minha criatividade para assuntos comerciais? Por que não consigo voltar a escrever coisas bonitas e inspiradoras como fazia antes?

Falta tempo. Falta esforço cognitivo pra pensar em algo bonito. O mundo não é mais um arco-íris. Ainda que aconteçam coisas legais nele. O mundo que eu imaginava antes não existe mais, tornou-se cinza, meio bege e ganhou outras prioridades. Deixei até de colocar vírgula antes do "e" na frase, porque aprendi isso numa das poucas redações de jornal que passei.

Agora, a escrita virou ferramenta de trabalho, virou exercício diário. Virou um trabalho mecânico. Cansa escrever, principalmente sobre algo que você não tem interesse. Principalmente quando é o seu ganha-pão, e você precisa fazê-lo de alguma maneira, pois é a única habilidade que você tem. E você precisa agradar, e ser pelo menos "boa", pois existem milhares de outras pessoas que também sabem escrever. Escrever é "fácil", ainda mais quando há computadores, tablets e celulares que ajudam a compor as ideias com mais rapidez que lápis e papel.

Either way, ainda me sinto feliz de voltar aqui eventualmente e ver como eu evoluí ao longo do tempo nos termos de escrita. Tanto nas descrições literárias de situações amorosas, quanto nas análises pessoais. Um texto meu, "o que é Deus pra você?", escrevi em 2008 - quando tinha 17 anos de idade. Dezessete! 

Nessa época, o blog era só um lugar pra colocar pra fora qualquer pensamento que vinha na minha cabeça. E pra imitar os autores que eu lia incessantemente. Hoje, até a leitura mudou - deixou de ser literária e romântica, pra se tornar científica, analítica, ideológica, contemporânea, acadêmica.

"Você escreve maravilhosamente bem. Não deixe isso morrer dentro de você". Recebi esse comentário em 2012 e toda vez que venho aqui, fico pensando se estou deixando a escrita morrer dentro de mim, pouco a pouco, com o passar dos anos. Por que agora virou trabalho, deixou de ser prazer. E quando se tem trabalho, falta tempo. Você chega em casa cansada. Não quer fazer nada, a não ser assistir algo no computador e dormir.

Saudades de ter tempo pra pensar em coisas bonitas e escrever sobre elas. Espero que minha escrita se aperfeiçoe com o tempo, mesmo não sendo mais tão literária. Tentar sempre melhorar, é o objetivo.

Como sempre, muitas saudades desse lugar.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O sonho dentro do sonho


Chovia forte lá fora. No emaranhado de lençóis e endredons, ela dormia. Sua respiração era profunda, sonora. Os cabelos encaracolados espalhados pelo travesseiro formavam a imagem de uma estrela com incontáveis pernas. Era manhã, dava pra sentir o sol tentando passar pelas pesadas nuvens de chuva. No quarto, a atmosfera deixava até os mais agitados com sono. Respirando profundamente, ela sonhava com deuses antigos que deixaram de existir pois ninguém acreditava mais neles.

Eles vinham visitá-la num salão grande e vazio, rodeado por estátuas, e sussurravam suas mensagens pra ela. Ela se sentia pequena e muito amada. Os deuses que deixaram de existir, deitaram ela num berço pequeno, mas muito aconchegante. E começaram a sussurrar, juntos, uma antiga cantiga. "Durma, menina, durma. O sol está à caminho, mas não irá te despertar. Sonha, menina, sonha. A noite está sumindo e o dia está pra começar". Aninhou-se nos lençóis e começou a sonhar.

#The100DayProject

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Moinho na cabeça

Porque há essa necessidade de colocar os pensamentos em ordem. De fazer algo da vida. De escrever, de ler, de assistir filmes. De escrever sobre os filmes que assisto. E as séries? São tantas, que perdi a conta. E haja vontade de fazer, produzir, compartilhar ideias, projetos. De ser independente, de ter meu próprio negócio, de fazer o que gosto. Porque há essa necessidade, que cresce na minha mente mas (quase) nunca chega ao papel. É como um enrolado de pensamentos, uma mistura de ideias, um moinho de frases, textos, parágrafos, palavras. Muitos se perdem, ficam nos entremeados do inconsciente, perdidos entre as memórias mais doces e as lembranças irrecuperáveis. O que eu estava pensando mesmo? Ah, em começar um blog novo. Em trabalhar por conta própria. Em abrir uma empresa nova. Mas a gente sempre quer aquilo que nos pertence. E precisa colocar essa bagunça da cabeça em ordem. E porquê não, fazer o que você mais gosta?

Es
cre
ver.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Meio porcento de vida

Um tilintar de chaves. Longe, distante. Eu estava em casa, sozinho. Não sabia exatamente porquê, mas não tinha ligado a TV ao entrar em casa. Nem me lembrava direito como tinha parado ali. Sentado no sofá, acendi um cigarro. Ouvia apenas o silêncio, quando o barulho de chaves surgiu.

Não era contínuo, o tilintar. Ouvi entre uma tragada e outra, quase não prestei atenção. Vinha de longe, talvez do terceiro andar. Apaguei o cigarro. De repente, me senti alerta, como um vigia noturno. Tentava ao máximo expandir minha audição - se é que era possível fazer uma coisa dessas - e procurar, de onde vinham aquelas chaves.

Até que o silêncio tomou conta de tudo, como um véu cobrindo os móveis, as paredes, o chão, eu. Fiquei ali, sentado, preso no silêncio, sem respirar. Devo ter ficado pelo menos cinco minutos assim. "O que diabos você está fazendo?", pensei, quase em voz alta. Quando mudei o olhar da TV para a porta, aconteceu de novo. O barulho de chaves.

Agora estava mais perto. E mais frequente. Era como se uma criança muito pequena estivesse brincando com elas, mexendo-as suavemente com aquela curiosidade ímpar que só encontramos em pessoas com meio porcento de vida. Mas o barulho se aproximava. E começava a espalhar-se, a cobrir o véu do silêncio, a tomar conta de mim. Mais forte, mais intenso, mais próximo.

Pensei em ligar a televisão, em abrir as torneiras, em ligar o som e colocar o celular no viva-voz. Mas eu precisava ser corajoso. Então, deixei que o barulho se aproximasse ao máximo. Até chegar a minha porta. Então, parou. O próximo som que ricocheteou todo meu apartamento parcialmente vazio, foi o da campainha.

Levantei e abri a porta. Era ela, do terceiro andar. Usava um vestido amarelo, meio desbotado. Esticou o braço com a chave na ponta dos dedos.
- Você esqueceu ontem. Encontrei aqui no chão, jogadas no tapete.
Sua voz era fria e sem sentimento algum. Como pode uma pessoa viver por tanto tempo com você, dividindo todas as contas, ser sua melhor amiga, mulher, tudo o que você sempre sonhou, e passar a tratar você assim, como se fosse um desconhecido? Não, era pior do que um desconhecido. Era como se fosse uma fala no interfone, uma mensagem no viva-voz, apenas um recado frio e mecânico. "Pega as chaves, por favor".
- Obrigado - respondi, inaudível, e ela não parou para perguntar o que eu tinha dito. Rapidamente afastou-se, subindo as escadas de volta ao seu apartamento tão distante e ao mesmo tempo tão perto.

Fechei a porta atrás de mim e finalmente, pude tirar os sapatos, a camiseta do trabalho, ligar a TV e pensar no jantar.