sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Livros e laranjas-cravo

- Então, o que você vai querer?
- Sabe, eu estava pensando. Quais são as principais coisas que um ser humano deve fazer?
O homem, meio hesitante, pensou um pouco. Não parecia entender, mas respondeu assim mesmo:
- Talvez plantar uma árvore.
- E porque? - perguntou a menina.
- Talvez para ter um mundo melhor.
- Essa cidade é lotada de árvore e eu não vejo melhora nenhuma nesse mundo - rebateu ela, olhando para a fileira de livros acima de sua cabeça.
Seguiu-se um silêncio. O homem parecia meditar. Aproximou alguns milímetros seu rosto do pescoço dela, imperceptível. O cheiro dela era doce como laranja-cravo.
- Qual será a segunda? - Ela quebrou o gelo. O homem afastou-se abruptamente, parecendo ter levado um susto. Ela não percebeu, ainda fitava os livros na estante acima.
- Dizem que é ter filhos.
- Mas filhos só trazem mais desgraças. Veja, quanto mais filhos você tem, mais dinheiro você precisa. Logo, precisa trabalhar mais. Logo, não terá tempo de cuidar de seus filhos. E aí eles irão por caminhos errados e você vai ficar se culpando pelo resto da vida por ter feito sexo naquela noite, sendo que a camisinha ficava só no armário do banheiro ao lado.
- Isso é uma visão muito fria sua - rebateu ele, fitando aquele cabelo ruivo e ondulado, tentando não se entorpecer.
- E qual a sua visão acalorada? - perguntou ela, virando o rosto abruptamente para fitá-lo. Ele desviou os olhos, tímido.
- Não sei. Talvez um filho seja a sua maior realização por estar passando seu gene para frente. É como se fosse uma forma indireta de dizer que você ainda está nesse mundo. De uma forma ou de outra, parece ser bem interessante ter filhos. As mulheres ficam mais doces e dizem que os corações dos homens amolecem.
- Só nos primeiros seis meses. Depois vai ficando cada vez pior.
- Você não é fácil, hein? - comentou ele, soltando um sorrisinho de brincadeira. Ela não percebeu. Voltou o olhar para a estante à sua frente.
- Uma vez me disseram que para um homem ser feliz precisa escrever um livro.
Silêncio. O homem outra vez parecia meditar. As palavras entravam devagar na sua mente. Profundas. Ondulantes, como os cabelos ruivos dela. Alguns segundos depois, ele respondeu, com um fio de voz:
- Eu acho que essa daí é verdade.
- Porque? Você já escreveu um livro? - Ela pareceu empolgar-se. - Sente-se realizado?
- Não. Mas já tentei escrever e não deu muito certo. Me perdi nas idéias e depois, por falta de tempo, ou por mais alguns motivos que não lembro, acabei esquecendo e perdi o caderno.
- Então você não se sente realizado?
O homem abaixou a cabeça, pensativo. Aquela menina sempre o deixava com o pensamento longe. Mesmo sendo mais nova que ele, ela sempre tinha aquele ar de esperteza. E isso o deixava tão pensativo, às vezes cheio de lembranças. E foi exatamente naquela hora que ele se lembrou de quando começou a escrever, quando a idéia ainda parecia-lhe fresca na mente. A ansiedade de terminar tudo logo o consumia, aquele desejo ardente de contar sua história. E, com o passar dos dias, a angústia da falta de tempo foi aumentando, a cabeça cheia de tudo, menos de idéias novas para o seu livro. Sentiu-se vazio. Encarava aquela folha de papel branca, com as linhas azuis escuras. Irritado, ele jogou o caderno no lixo e foi dormir.

- Não se sente realizado? - repetiu ela, acordando-o do sonho num susto.
- Não sei ao certo. Sempre fui rodeado de livros. Por toda minha vida sempre gostei de ler, escrever, pesquisar, observar, tudo que envolvesse leitura e escrita. Mas quando fui tentar, não deu muito certo.
- Aposto que faltou inspiração.
O homem hesitou. Respirou profundamente, tentando não dar margem as suas lembranças.
- Talvez. É. Acho que sim.
Agora ela estava abaixada, olhando os livros da última prateleira. Ele fitava suas costas nuas curvadas, a coluna tão reta aparecendo por debaixo da pele branca. Algumas sardas se espalhavam pelo corpo. Ele tentou não pensar em como seria ela totalmente nua.

Ela se levantou. Passou a mão pelos livros a sua frente, procurando algo sem muito interesse. Parecia despreocupada, apesar das olheiras entregarem que ela passou a noite em claro. Onde? - perguntou-se o homem. Em boates? Em bares? Lendo?
Ele seguia seus movimentos, complacente, esperando algo mais. Estava prestes a fazer a pergunta de todos os dias quando ela falou:
- Onde você procura inspiração?
- Como assim?
- Para terminar o seu livro. Ou para tê-lo começado. De onde veio? E para onde foi?
- Não sei. Já li que os grandes escritores conseguem tirar seus melhores personagens do meio em que eles vivem. Do mundo mesmo, sabe? Mas, de repente, tudo para mim pareceu tão sem sentido.
Outro silêncio. Agora quem parecia pensar era ela. Fitava o livro que havia tirado da estante, sem abrí-lo. Só olhava a capa.
- Eu posso te dar uma dica? - perguntou ela.
- Claro.
- Veja só: eu venho aqui todo santo dia, procuro um livro interessante, mas nunca tenho dinheiro para comprar nada. Venho, olho essas prateleiras tanto que já sei de cor onde fica cada livro. E nunca acho nada interessante. Quando acho, não tenho dinheiro. Isso não parece pertinente para você?
- Sim. Parece. - Ele franziu o cenho, ainda meio que sem entender.
- Então o que você está esperando para ir escrever sobre essa personagem que eu acabei de criar?
Foi como se o mundo ao seu redor clareasse. De repente, aquele aparente vendedor comum de uma livraria pequena no centro da cidade estava totalmente aliciado por uma nova idéia. Aquela garota, que antes ele nem chegava a dar atenção, lhe pareceu mais interessante do que ele havia sequer imaginado. Os gestos dela, por mínimos que fossem, pareciam cada um contar uma história. Solitários. E juntos. Tudo ao mesmo tempo. Ela era uma mistura de vários livros, de várias histórias jamais contadas. Histórias novas e antigas. Modernas e oldschool. Tudo nela era uma história diferente, e ele queria contar uma, ou todas aquelas histórias. Todas. Era isso. Ele queria contar sobre ela. Em seu livro.
Ela seria o seu livro.

Como por piloto automático, ele refez a pergunta de todos os dias, mas não pareceu ouvir quando ela respondeu:
- Vou querer o seu livro.

20 comentários:

Michele Hubner disse...

Plantar uma arvore
Ter um(ns) filho(s)
Escrever um livro.



Eu já plantei uma arvore, nao tive nenhum filho ainda, já escrevi o livro(vrinho) de poemas e já quase escrevi um romance... ainda consigo!

Carine Passos disse...

Eu ja plantei uma árvore, não pretendo ter filhos, gosto de escrever, mais nunca pensei em escrever um livro .. Mas enfim ..
a felicidade está naquilo que nos completa!
um dia eu descubro o que me completa! :)

Muito Bom o blog!
beijos ;*

Jão disse...

Hmm, vejamos

Marina Melz disse...

olha, há tempos leio isso aqui e posso te dizer que há tempos não lia um texto tão envolvente. quem sabe a busca por inspiração não termine mesmo, assim, de uma hora pra outra? ;)

• Nanda disse...

Ah,que lindo!
Eu nunca plantei uma árvore e nem tive filhos!
Mas sonho em escrever um livro! :D

beijo!:**

Cosmunicando disse...

adorei! o final é ótimo...
beijos

JLM disse...

hi sweet

algumas sugestões de melhora:

1. ao invés de "O homem parecia meditar na frente daquela garota" talvez fosse melhor "O homem parecia meditar" isso pq qdo ele chega perto dela ela não percebe pq olha a estante de livros, mas se ele está na frente dela, seria impossivel ela não perceber.

2. acalourada não existe. tente acalorada.

3. em "As palavras entravam devagar pela sua mente" talvez a preposição melhor seria NA ao invés de PELA.

4. arrume o plural em "menos de idéias nova para o seu livro".

5. vago e vazio significam a mesma coisa, ou pelo menos dão a mesma idéia, então não pq usá-los juntos. seria uma repetição desnecessária.

6. "tentando não dá margem", DAR fica melhor.

7. em "apesar das olheiras a entregarem que ela passou" o artigo A tá sobrando.

8. "todos santo dia", TODO.

9. em "Como se pasassse um sol no seu rosto" teste a variação "Como um sol em seu rosto" ou "Como um sol brilhando no rosto".

Agora chega de picuinhas gramaticais, não?

Em primeiro lugar, a 1ª metade me lembrou Lolita, do Nabokov, vc já leu? Talvez pq vc citou a idade dela só depois, a impressão no começo era q a "menina" era mais nova. achei esse efeito legal.

apesar de usar um lugar-comum (as 3 coisas a serem feitas na vida) vc conseguiu sair do clichê. tornou interessante algo q não interessa mto.

vc menciona, se não me engano, 3 ou 4x q os cabelos dela são ondulados, cacheados, etc., mas nesse texto aparece pouco motivo para as repetições. talvez eliminar em uns lugares onde não sejam essenciais deixe o seu texto mais enxuto.

é impressão minha ou ela é mais esperta q o homem? ele é mais velho q ela, mas qual seria a idade dele? não digo pra vc citar o nº mas para tentar se colocar no lugar dele para descobrir como alguém da idade dele raciocina. apesar da sagacidade não ter idade, nesse trecho curto do texto (desconfio q ele faça parte de um texto maior, ;)) mostra ela como dominante na conversa e mais segura q o homem.

tem mtas arestas q podem ser cortadas, mas como já disse antes, isso acontece na revisão, onde uma dica (não sei se vc já leu ela) é cortar 10% do texto. assim, o supérfluo desaparece.

no mais, vc continua evoluindo, não pare garota, para cima e avante, com diria o super-homem.

1 abraço

Bruna Bo disse...

Jéééssica, tem selo pra você! Dá uma lida nas regras antes... ;D

L. Malloy disse...

Acompanha o meu blog, por favor.

L.

Milena Shoji. disse...

nossa, foi você quem escreveu?
excelente texto!
adorei, de verdade.
você SIM deveria escrever um livro!

é, não fiz quase nada do que foi citado. talvez um dia..

beeijo.
(ah, eu fiz o outro blog sim! vamos ver se dou conta dos dois...)

Jão disse...

Tem um selo pra ti lá no meu blog :P

Lara disse...

Muito bem escrito e muito interessante. Me prendeu até o final...

Maurício disse...

tem um selo pra ti lá no nosso blog

http://toscoporsertosco.blogspot.com/2009/01/yeah.html
__________________________________

M. Manfio- Vice- Presidente do Tosco Por Ser Tosco

Lay disse...

Linda passagem... geralmente tudo é interessante para alguém.
Grandes feitos não necessariamente pracisam ser anormes...
As vezes alguns pequenos atos são grandes feitos, como escrever um livro, ou ter um filho, ou plantar uma árvore.

beijos

• Nanda disse...

Tem um selo pra ti no meu blog...:) passa lá!

beijoo!

ViNícULa disse...

GENIAL

sinceramente



nossa

me perdi lendo
imaginando a cena
o livro
a árvore
o rosto dela enquanto minimizava tudo o que ele falava



genial




ah
tem selo pra ti lá no blog

heheheheh

disse...

oi jéssica, quanto teeeeeeempo!
fiquei com saudade da blogosfera, do blog, do seu blog, de vc. enfim, é bom ler mais um texto maravilhosos seu.

beijo

Gabriela Magnani disse...

A cada texto, melhora mais! Parabéns, admiro muitooooooooooo!

Sergio disse...

Lindo, Jéssica!
Obrigado por hoje, viu? Você foi o máximo. Não tens idéia do quanto.

Sergio disse...

Em tempo: muito legais as dicas do Jef. Muito bacana o cuidado que ele tem com você. Em suma (um esporrinho): todo mundo acredita em tu, tá na hora de você retribuir essa fé, acreditando muito mais que acreditas. Tipo a música da Rita Lee... AGORA SÓ FALTA VOCÊ.

Quer a letra toda pra pensar a respeito?

Um belo dia resolvi mudar
E fazer tudo o que eu queria fazer
Me libertei daquela vida vulgar
Que eu levava estando junto à você
E em tudo o que eu faço
Existe um porquê
Eu sei que eu nasci
Sei que eu nasci pra saber
Pra saber o quê?

E fui andando sem pensar em mudar
E sem ligar pro que me aconteceu
Um belo dia vou lhe telefonar
Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu
No ar que eu respiro
Eu sinto prazer
De ser quem eu sou
De estar onde estou

Agora só falta você
Agora só falta você
Agora só falta você
Agora só falta...

Te amo, muleca!