sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Chuva de outono

A última margarida caía da árvore, lentamente, dançando no ar enquanto a pequena garotinha a observava. Parecia obra de algum ser divino, o movimento daquela flor, e ela estava tão hipnotizada que não conseguia se mover. Só quando sentiu o empurrão de um garoto nas suas costas que caiu na realidade e voltou a correr.

Eles estavam sentados no banco, abraçados. Logo à frente, várias crianças se divertiam no parquinho, subindo e descendo escorregos, indo para frente e para trás o máximo que podiam nos balanços, se pendurando nas barras de ferro. Eles observavam-nas, quietos, absortos em pensamentos. Quando o tempo deles chegaria?

Ela ajeitou o vestido que subia com o vento, e ele observou como aquele corpo, aquelas sardas e aqueles cachos ruivos combinavam tão bem com seus olhos verdes. Eles eram tão diferentes, mas pareciam exatamente iguais, como se encaixassem os cabelos preto e liso dele com os cacheados e ruivos dela, a camiseta branca com calça jeans dele e o vestido maravilhoso dela, e os seus olhos verdes com os azuis dela.

Por um momento, se levantaram e puseram-se a caminhar pela praça coberta das últimas flores que caíam, deixando a primavera para trás. Lá em cima, o céu começava a escurecer, mesmo que não estivesse tão perto assim do entardecer. Algumas nuvens preenchiam o espaço entre o sol e as estrelas, e assistiam um casal caminhar por entre os alaranjados e marrons das folhas caídas.

Então, ela sentiu as primeiras gotas caírem no seu braço. Depois uma exatamente na testa dele. Então, começou uma chuva fraca, de vento. Os dois pararam no meio do campo, e olharam para cima. O céu escurecia. Mas não tanto, a ponto de prever uma chuva forte. Abraçaram-se, e a chuva desabou de vez em cima deles, enxarcando suas roupas, deixando transparente a camisa dele e molhando o vestido dela.

Ela olhou-o bem no fundo dos olhos. A chuva de outono, era isso que estava esperando. Sorriu.
Então disse:
- Tenho uma coisa para te falar.
- O quê? - ele perguntou, ansioso, retribuindo o sorriso.

Ea sussurrou no ouvido dele, para mais ninguém ouvir:
- Estou grávida.

Ele abraçou-a forte e sentiu a água quente dos olhos misturar-se a fria da chuva de outono. Aquela chuva trouxera o seu maior presente, aquele ano.

10 comentários:

paula barros disse...

Estava lendo alguns contos. O conto "Não me dê",gostei muito. assim feito esse aqui.

Você é bem criativo, com uma escrita dinâmica. Gostei.

bjs

Marie Raya disse...

Jéssica, eu AMEI!
Caramba, você combinou perfeitamente as palavras e os sentmentos. Puder sentir cada sentimento, cada sensação, quase senti as gotas de chuva. Que incrível, um beijo :*

Dauri Batisti disse...

Mesmo descrevendo uma cena já bem reproduzida - um casal de enamorados debaixo da chuva - sua prosa tornou a cena nova.

Um beijo.

Naty disse...

Ai que liindo...
Mais uma prova de que chuvas não trazem só desgraças. Amei!!

Vladir Duarte disse...

Lindo texto, bela descrição!

Rebeca Postigo disse...

Não gosto muito de chuvas...
Mas acho que vou começar a gostar...
Quem sabe ela não me tras um presente??? rsrs
Amei o conto!!!

Bjs

Anônimo disse...
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Juliana Marques. disse...

um final completamente inesperado (pelo menos pra mim) :)

manda uma chuva dessa pra mim, pra acalmar meu coração :~

:*

Daniela Filipini disse...

Cada detalhe.. Imaginei tudo aqui, e digo que é incrivelmente bonito!

Ruby disse...

liiiiindo!
simplesmente lindo, amei o ritmo da narrativa, tdo descrito com uma delicadeza...

à propósito, é nanda, viu? :]
bjo