quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Sinergia

Luzes coloridas e raios de som chicoteavam o ar no galpão aberto. O show era caótico e  tinha muita gente ao seu redor. Ela saiu da multidão que se esmagava perto do palco para fumar um cigarro. Encostada na parede, longe de todos que conhecia, ela mexia no celular e via pessoas desconhecidas. Pra ela, o show já havia terminado.

No momento que ela dava sua primeira tragada no cigarro, ele chegou. Acompanhado de mais dois amigos, também direcionou seu olhar para o palco, e assim ficou por alguns instantes. Apreciava a apresentação, mas sem muito alvoroço. Pra ele, também, o show já tinha acabado.

Conversando com os amigos, começou a perceber as pessoas ao seu redor. Foi quando a viu. Ali, encostada na parede, fumando, com o celular na mão. Já havia visto tantas vezes assim. Mas nunca com o cigarro. Ele sabia que podia se aproximar, afinal, eram mestre e aluna. Não havia nada de mal em conversar com uma de suas alunas, certo?

Bateu suavemente no ombro de um de seus amigos e avisou que ia se ausentar por um momento. Como se guiado por um impulso, deu o primeiro passo em direção à ela. Caminhava devagar, hesitante, como se estivesse se preparando para o momento de se aproximar dela. Passou por algumas pessoas no meio do caminho, cumprimentou outras. Chegou.

- Oi.
Ela levantou a cabeça da tela pequena do celular.
- Olá professor, tudo bem?
- Tudo ótimo. E com você?
- Tudo bem.
Sorrisos de plástico foram trocados. Mas o olhar falou sozinho. Ela guardou o celular no bolso e deu uma tragada no cigarro. Olhou para ele, no fundo de seus olhos, como se pudesse conversar sem dizer coisa alguma.
- Quer um? - perguntou, despretensiosa, suavemente destoando a tensão que de repente compô-se entre eles.
- Sim. - respondeu. Pegou um cigarro do maço que ela entregou a ele, acendeu e deu uma tragada longa. Soltou a fumaça. Voltou a olhar pra ela. Existia uma energia diferente entre eles, algo difícil até mesmo de colocar em palavras.
- Não está assistindo o show? - ele perguntou, mais como uma forma de puxar um assunto convencional, do que por curiosidade ou qualquer coisa que o valha.
Ah, é. De repente, ela se deu conta que estava ali, com ele, segurando o cigarro - que já se apagava entre os dedos. Tinha ido para outra dimensão, para outro lugar, enquanto encarava-o profundamente.
- Tá quase terminando - disse ela. Sorriu, besta.
Ele começou a falar sobre o show e sobre a banda, mas ela não escuta. Apenas o encara, olha diretamente em seus olhos, como se quisesse desvendar o segredo dele.
- Quer sair daqui? - ela pergunta, num tom de voz quase inaudível. Ele escuta. Também como se estivesse hipnotizado, dá mais uma tragada no cigarro e olha para ela com o rosto iluminado de contentamento.
Ele balança a cabeça, afirmando.
Ela joga o cigarro no chão e pisa em cima com o tênis.
Ele dá uma última tragada e joga o cigarro longe.
Juntos, sem dar as mãos, eles se saem, caminhando em sintonia. Quem vê, não percebe, mas há algo entre eles. Algo inexplicável. Quase como uma sinergia.


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Faz tempo que não venho aqui. Revendo minhas publicações antigas, percebi quantas vezes disse "adeus" e quantas vezes senti saudade desse lugar. Espero que um dia eu volte, com a frequência de antes. O tempo dirá. "Trust in the wisdom of the universe".

Um comentário:

Leon K. Nunes disse...

Belo conto. Fazia tempo que eu não lia um conto que me deixava envolvido. Nem o número um, Rubem Fonseca, ultimamente, anda conseguindo manter o prumo (pudera, com noventa anos não é fácil). Esse conseguiu. Também ando distante da blogosfera. Dá saudade mesmo. Às vezes volto, como você, porque aqui ainda há uma cumplicidade que não há lá fora. Foi bom ver que você esteve aqui. Um beijo, saudades.