sexta-feira, 4 de julho de 2008

- E você, por que desvia o olhar?*

Ele está sentado no banco do bar. Sua jaqueta de couro é cintilante, como se tivesse passado óleo para ficar do jeito que estava. Não chamava atenção dos que estavam longe, mas quem se aproximasse com certeza repararia na diferença das jaquetas dos outros com a dele. Seus cabelos loiros e longos pendiam para um lado da cabeça, talvez não desejando estarem ali de tão sujos. Uma de suas pernas pendia para um lado, fazendo o all-star surrado ter um certo peso. A outra estava apoiada no banco.

Cotovelo apoiado na bancada. Conversava asneiras com o barman. Nada que interessava aos dois. Bebericou seu whisky e mexeu no cabelo, mudando-o de posição. Olhando de soslaio, avistou uma mulher loira, linda, vestida numa calça jeans apertada e com os seios brancos amostra. Não a tinha visto pelo bar, parecia nova na cidade. Viu que ela se aproximava, portanto, não lhe deu atenção e continuou com o homem do bar.

Ela aproximou-se, mas não tão perto. Ficou a observá-lo de costas, curvado, sentado de uma forma máscula no banco. Tinha ombros largos, coisa que lhe chamava atenção. As coxas também eram grossas e ele expelia uma certa virilidade em seus atos. Decidiu chamar sua atenção. Batendo no seu ombro, disse:
- Ei, você.
Ele virou.
- Me paga um drinque.
- Por que? - ele levantou as sobrancelhas.
- Porque eu quero, ora.
- Nossa, calma, tudo bem. Senta aí. - apontou a cadeira a sua frente.
- Uma dose pra ela - apontou para o garçom.
- Você é novo aqui, não é? - foi a vez dela de perguntar.
- Na verdade, não. Venho aqui todos os fim-de-semana, e você é quem aparenta ser nova por aqui.
- É, sou mesmo, vim da cidade vizinha.
- Ah.

Um sorriso abafado. Ele percebeu que ela não o olhava no olho. Isso lhe chamou atenção. Não sei como, nunca havia encontrado ninguém que conversasse sem olhar para seus olhos. Até porque, ele tinha olhos verdes, então era quase irresistível para as mulheres. Ela conversava olhando-o em todos os lugares - até mesmo na testa ou no cabelo desgrenhado - mas nunca nos olhos.

- Você não me parece bem. Aconteceu alguma coisa?
- Não - abaixou a cabeça - Tudo bem.
- Tem certeza?
- Er... - ela quis desistir, mas decidiu continuar. Não tinha nada a perder, mesmo. - É que meu ex me deu um fora agora e todas as minhas amigas foram embora. Então, estou sozinha. Completamente sozinha. Você sabe...
- Sei...?
- Sabe, mulheres, carentes, são sempre assim, não costumam ficar sozinhas e acabam encarando o primeiro que lhes chama atenção. - Ops! As palavras saíram como um jorro. Quis enfiar sua cabeça em um buraco qualquer dali perto, mas não teve coragem pra se levantar e sair correndo, nesse caso só conseguiu enfiar-se em seus próprios seios.
- Hmm. Então quer dizer que chamei sua atenção?
- Talvez. - e foi ficando cada vez mais vermelha.
- Você parece tímida. Por que desvia o olhar?*
- Porque - hesitou - porque tenho medo.
- Medo?
- Medo de me apaixonar.

E, não sei por qual motivo maior, ela olhou nos olhos dele. Olhou de uma forma tão profunda que, por sinal, estava se apaixonando. E deixando-o apaixonado. De repente, quando o barman já estava de volta com seu drinque, ficou estupefato em ver os dois se beijando de uma forma tão inesperada. E ardente. Eles exalavam amor por todos os poros e até o velho que estava na última fileira de bancos do bar ficou impressionado. Todo o bar pareceu ficar estático enquanto os dois se beijavam, se amavam. Intensos.
Quentes.
Ardentes.
Vibrantes.
E todas as palavras relacionadas.

Saíram de mãos dadas. Talvez parassem em algum beco, ou seguiriam logo para algum Motel barato da cidade. A noite, sem dúvida, seria picante.



* — E você, por que desvia o olhar?

(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)

— Ah. Porque eu sou tímida.


Poema original da frase. Rita Apoena. Lindo, né? :}


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P.S.:Obrigada Maria Fernanda por me lembrar do poeminha da Rita. Valeu, mesmo, de verdade x)
P.S.*: Esse post é exatamente pra mostrar que, diante de taaanto frio de julho (não vejo esse frio todo aqui, aqui não faz calor mas faz um friozinho bom de ficar abraçado, mas esse exagero todo por aqui não tem, não, sorry), você ainda pode se divertir se sair à noite e olhar nos olhos de alguém. Por mais sujo que possa parecer. :)

14 comentários:

Anselmo disse...

Gostei muito da descrição que tu fez nesse texto! ficou muito massa!

e a falta da descrição se encaixou direitinho no papel de forasteira dela hehehehe

Senti também uma inspiração "rock rocket" nesse texto...

abração e não pare de escrever!

Ana Baldner disse...

Gostei muito do seu conto... acho que as pessoas tem medo de se apaixonar, umas por já terem sofrido demais (como eu) e outras pq tem medo de sofrer... as relações estão muito superficiais... o que é uma pena... pq se apaixonar é maravilhoso...

bjs

Marina Melz disse...

olhar nos olhos é sempre difícil. mas quem se apaiona olhando nos olhos, corre bem menos riscos de se enganar.

PS: exceto mulheres carentes.

Maria Fernanda disse...

Rita Apoena - E porque você desvia o olhar? ;)

Olhos nos olhos sempre revelam segredos.

JLM disse...

Legal. Gostei. Me lembrou alguns dos contos picantes da Diva.

1 abraço.

ViNícULa disse...

muito bom texto

bem detalhado
diria que uma quase excepcional descrição

só que o final era um pouco previsível, pois é o que acontece geralmente nessa atual sociedade do aqui, agora, e o resto que se dane

mas enfim
gostei mesmo do texto

ViNícULa disse...

linkada também

Cá disse...

jéssica, quantos milhares de posts novos! êeee
estava viajando e ainda não li nenhum, vou ler todos e responder seu meme.

beeeijo

Cá disse...

não sei se sou só eu, mas eu sempre leio imaginando a situação. acho que todo mundo é assim. e foi lindo, gostei bem muito e fiquei imaginando historinhas baseadas na sua. até faço algumas crônicas, mas nunca publico, já te falei, né?

esse poeminha eu já conhecia, é lindo mesmo.

Camila disse...

oi, a um tempo atrás você me deixou um comentário, e eu sem tempo nao respondi, mas agora que tenho tempo, vejo o que perdi, otimo texto meu Deus, brilhante, parabéns..

beijao

Jessica Lara disse...

Adorei o texto,
Quem dera fosse sempre fácil assim da paixão acontecer...
Acho que o segredo é o olho no olho, mais sempre vei ter aquele que não olha e deixa escapar a chance de ver uma alma de perto...
Sem comentários o poema, lindo demais ;D

Se der dá uma olhada nesse textinho que escrevi aqui
http://essenomesim.blogspot.com/
bjO.

Vanessa disse...

Poucos são aqueles que conseguem mentir ao olhar nos olhos. Então muitas vezes não queremos que a verdade fique escancarada.
O medo de se apaixonar existe em qualquer um que já sofreu uma vez ou até mesmo quem nunca viveu uma paixão.
Mas eu ainda acredito que o melhor mesmo é mergulhar na pessoa amada, não desviar o olhar.
=]

Lile disse...

Oi, Jéssica!
òtimo texto, lindo poema.
Mergulhar assim dá medo mesmo. Mas um medo bom...
Bjo

Samuel Gois disse...

muito bonito. Não sei se é romantico. Amor a primeira vista ou a primeira fragilidade somada a carencia? O cara era um oportunista escroto que levou a menina de 1a pra o motel ou as forças do destino os fizeram se amar para sempre? Ela estava bebada por isso nao conseguia controlar as palavras, labios e depois as pernas? Quem sabe? O que importa é que foi um belo beijo, todos no bar viram. Talvez até tenham se inspirado para beijarem aqueles ao seu lado também - e naquela noite os moteis estavam cheios devido a isso. Quase magia.

Ela é timida, mas não menos obstinada.