quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Sétimo Andar

São Paulo, 13 de setembro de 2001.

Sabe, Carol, ontem eu senti uma falta repentina de você. De nós. Não que eu pudesse te ligar ou ir ao teu apê (não é assim que chamam agora?). Bem, quem sabe eu não pudesse mesmo. Quem garante que iria te encontrar?

Mas, mesmo assim, senti saudades suas. Veio a lembrança daquelas madrugadas que passamos juntos; foram tantas que eu já perdi as contas. Era tão bom quando saíamos no meio da noite, só a andar em meio a turbulenta cidade de Central do Brasil. Por falar nisso, este ainda é o seu filme preferido? Dia desse eu assisti e lembrei de nossas aventuras pela madrugada. Eu me divertia tanto com seu sorriso.

Uma noite você não quis sair. Bateu na minha porta com uma tosse dos diabos, e eu te fiz entrar com a promessa de que fecharia as vidraças da varanda. “É a poluição” você disse. “São Paulo anda um caos” concordei e te fiz um chá de habu. Eu nunca soube do gosto desse chá, era receita da minha avó oriental. Você não conheceu minha avó. Ela já morreu.

Nessa noite não dormimos. Ficamos no sofá por muito tempo, entre tosses, risos e conversas. Eu passeava meus dedos nos teus cachos sobre a minha perna. Você era só tosse, cachos e meias. Tinha vindo com aquele All Star preto que eu adorava, e talvez cheirasse a chulé por estar molhado. Percebi que chovia. Eu sempre abria as portas da varanda quando chovia, mas não abri aquela noite. Você estava lá.

Então, amanheceu. Eu te fiz adormecer no meu colo, mas você nunca foi muito de dormir. Logo nos primeiros raios de sol que adentrava a sala, você acordou e me beijou na testa. Foi doce. Eu fui à cozinha te preparar um café forte, enquanto você lavava o rosto. A chaleira apitou quando você voltou do banheiro e ficamos na bancada, tomando café com torradas francesas. Percebi que a luz ainda estava acesa e refletia no líquido escuro dento da xícara.

Depois do café, eu te deixei na porta do elevador e te desejei boa sorte e melhoras. Voltei a varanda e não foi preciso que eu te chamasse; você voltou o olhar para o meu sétimo andar e acenou. No entanto, ao invés de acenar de volta, peguei a câmera polaróide e tirei a foto que agora está num porta-retrato na parede em cima da TV. Foi a foto mais bonita que eu fiz.

Depois desse dia, nada mais aconteceu. Eu esperei que você me ligasse, como sempre fazia, marcando aonde iríamos próxima noite. Você não ligou. Daí, nas ultimas instancias, eu tentei te ligar, mas só dava caixa postal, até que por fim deu número inexistente. Decidi te procurar pelos lugares onde você costumava ficar. Apartamento, vendido. Aquele bar, falido. Algumas boates, vazias. Então, procurei no meu ultimo caso, aquele lugar que eu tentei te levar um dia.

Estava cinza, assim como estão todos os dias. Não havia nada para fazer. Fazia tempo que eu não saía com ninguém. Um homem precisa dessas coisas, mais do que a mulher. Eu te chamei. “Se você for eu vou...”. Quando o táxi chegou, eu disse o destino e você corou. Nunca tinha visto você tensa daquele jeito. Chegamos. Entramos. Subimos. Eu juro que não te queria fazer mal algum. Juro e posso jurar até hoje. Cinco minutos, fomos embora. Você não quis ficar.

Deus sabe, o que eu mais quis foi te proteger. De qualquer mal, de todos os perigos da cidade grande. Porém, fui eu que demorei a entender que o maior perigo era você. E a principal vítima era eu. De tanto tentar te proteger, acabei sem proteção. Daí, você sumiu e tudo ficou meio fosco, meio sem sentido.

Eu queria te achar de qualquer maneira. Fiz um anúncio com a foto de você olhando para mim, alto aqui do sétimo andar, essa mesma que ainda está na parede em cima da TV, e pus um aviso de “Procura-se” embaixo. Ninguém viu o anúncio. Não havia recompensa. Mas eu colei em quase todo lugar, postes, lojas, vitrines, carros. Ninguém via. Parecia que os papéis se evaporavam como você.

Fiz isso por muito tempo. Ainda tinha esperanças que você me ligasse ou aparecesse na rua. Passei várias noites na varanda, com o telefone na mão, olhando o transito interminável de São Paulo. E foi numa dessas noites que notei que você não voltaria mais. Então, me afastei da varanda, fechei as vidraças e apaguei a luz.

Os poucos que te viram por aqui, a eles eu fui perguntar do seu paradeiro. Nenhum sabia. Mas disseram que, dos tempos que passou por aqui, mal você não fez. Aliviei-me. Precisava da certeza que não estava correndo atrás de alguém que não existia, ou que era louca.

Agora me pergunto se algum dia eu vou retornar a te ver. Quiçá (agora dei até para falar gírias de velhos) numa esquina qualquer da Avenida Paulista. E se nossos olhares se cruzarem, será que você vai fugir? Como você reagiria se, por um acaso, retornasse a minha rua e, automaticamente, ao cruzar o asfalto, olhasse para o meu sétimo andar? Será que eu ainda estaria lá? Será que você iria se lembrar?

Se você for, eu vou.


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(inspirado na música Sétimo Andar de Los Hermanos)

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UP:
Deu a louca no blog (tô dizendo que ele me odeia, qualquer dia eu mudo) e postou o mesmo texto um zilhão de vezes. Agora já ajeitei, ainda bem --'

23 comentários:

Eloisa disse...

Eu adoro Setimo Andar. (:
E que curioso, fui ver tuas postagens abaixo e todas sao iguais. (!) Serão meus olhos?

beijo.

Gaby Almeida disse...

Simplesmente perfeito...

Matheus Chatack disse...

Lindo :') Adoro seus contos.
Mas passei o conto inteiro pensando: EU NUNCA VI CENTRAL DO BRASIL. Desconcentrei total na hora que me dei conta disso. Mas vou ler de novo (depois de ver central do brasil)

Andrey disse...

Adoreii seus contos ;D, gosteii das suas experiencias tambem :D
PERFEIITO AMOORI :D (LL

Jéssica disse...

Comentário de Katrina (http://www.blogger.com/profile/14125601886695692682):

A avenida paulista é um lugar onde todos se encontram, mesmo que em partes quase que irreconhecíveis, mas estão lá, não importa se é o primeiro ou sétimo andar.
Adorei aqui, sinceramente

adenilson disse...

e tudo acontece num andar
q dahora xd~
primeira vez no seu blog
gostei
espero vir mais vezes.
e ah...
aproveitando como naum sabia q ia pssar aki peço a ti pra q vc de sua colaboração lá no primeiro post do blog...é um pedido muito especial e conto com sua ajuda.
ótimo fds.
nos falamos em breve....
e feliz dia do voto secreto...
abraço

Kari disse...

Já ouvi falar dessa música, mas nunca a ouvi...
Que conto mais lindo! Amei!!!!!

Beijos

Candy disse...

Ow, Pequena, muito lindo.
Coitada da pessoa que ficou esperando. Puuutz
=/
E quem nunca esperou por alguém que não vai mais voltar?
e se soubéssemos que 'aquele' tchau foi o último? deixaríamos ir?
:~

*adoro LH!

:***

Ana Paula disse...

Adoro essas tuas cartas moça...^^

Carol Rodrigues disse...

Nossa... vc tem talento moça! Já pensou en escrever um livro?
Bom escritor é aquele que prende a atenção do leitor em cada palavra e o escraviza no texto até o final.
Vc fez isso com esse conto!
Adorei =)

Incerta disse...

Doce, terno e profundo...
Digno de reflexão, digno de um sorriso ou uma lágrima solitária.
Parabens...
Gostei incrivelmente...

Leon K. Nunes disse...

É, esperar alguém na verdade é um grande fardo, talvez o maior que existe; para todos os problemas restantes podemos fazer algo que o supra, que o solucione. Mas quando há outra pessoa envolvida, é sempre difícil criar qualquer expectativa. Qualquer que condicione a felicidade à presença de outra vai sentir o efeito negativo da solidão. Mas, sempre surgem surpresas né...

Gosto de textos inspirados em músicas, assim como gosto em filmes também. Tenho gostado das coisas que tu tem escrito, das tags, etc.

Minhas mãos estão pesadas demais nesse instante, não sei porquê. Um beijo, até.

Dica disse...

Que linda você, Jéssica.
Quando encontrei seu blog e vi esse texto imenso não deu vontade de ler. Cliquei na barrinha lateral, olhei, olhei e não suportei de curiosidade. Tive que ler, saber o que você escreve, o que você diz.. E me surpreendi, me apaixonei pelo que escreveu.

O prazer foi meu!

beijo

Lile disse...

Oi, Jéssica,
vir aqui e ler seus contos fica cada dia melhor. Pena que meu tempo tá se esvaindo pelas frestas da vida...
Bjo!

laari disse...

cara, apaixonei no conto. uma facilidade em dizer as coisas. queria poder ser assim. adorei mesmo.
beijos.

Dica disse...

Bem, as datas deixei grandes prq Às vzs não coloco título nas postagens, ai uso a data como título. :)
Mas, já tentei tirar de lá e não consegui. Meu blog "Bugou". Pra ajeitar só mudando layout, tudo.. E ando sem tempo pra isso, mas, em breve ajeito.
Obrigada pela Dica, flor.

beijão!

Vini Manfio disse...

nunca ouvi a música
mas gostei bastante do texto

como gosto das tuas histórias

são sempre cheias de detalhes
e conteúdo

Leon K. Nunes disse...

Puts, demorei um absurdo pra responder ao que comentasse, né... estava desanimado e por isso dando pouca atenção ao meio virtual, aí aproveitei e arejei uns dias, sumi, algo assim. Precisava só dum sossego mesmo. Não estava cansado porque nem faço tanta coisa assim, não sou nada ocupado - o que não me falta é tempo livre -, era apenas um desconforto, uma ausência, que, assim como você, eu também não sabia: ausência do quê?

O fato é que ainda não sei, mas agora as coisas estão contornadas, ao menos por algum tempo.

Quanto à continuação da história, vou ver. Sabe, o engraçado é que eu, quando comecei a escrever, tinha na cabeça justo as coisas que não escrevi; terminei me obrigado a criar uma 2ª parte para suprí-las. Vou guardar a deixa pras fases de pouca inspiração.

Beijos tantos!! o/

Leandro Regueira disse...

Oi Jéssica, meu sobrenome é Regueira mesmo!
Muito obrigado pela correção, eu não havia notado.

E cara, que texto maravilhoso é este? Amo demais esta música e se você tivesse feito um texto mixo eu te mataria, mas você fez um texto incrível, estou maravilhado até agora, parabéns.

"Porém, fui eu que demorei a entender que o maior perigo era você. E a principal vítima era eu."

Muito bom este trecho, me tocou muito.

Parabéns!

Tetê disse...

Publica um livro jessica!
serio mesmo!

Matteo Ciacchi disse...

porra, que texto BOM
eu sou da opinião de Tetê

Marú disse...

sabe o que eu mais gosto nesse texto? ele me abriu os olhos de que o talento é nato. quando eu pedi pra tu escrever, não minto, duvidei um pouco. pra mim 'a outra' ñ foi suficiente. mas, caralho, o que tu tá esperando? publica um livro!

Steferson Z. Roseiro disse...

Caramba, Jé, de todos os seus textos recentes, esse, decididamente, é o melhor.
Nem tanto pelo sentimentalismo (afinal, o do gato é recheado disso e, embora seja bom, não chega perto desse), mas pela história e pelo modo que você o contou. Eu, verdadeiramente, adorei ele.