segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Floquinho de neve

Querida Sofia,

Visualize: um floquinho de neve bem feito, daqueles que aparecem em filmes, está caindo neste momento na janela aqui da frente. Lá fora, as crianças brincam, fazendo bonecos de neve e atirando bolas de gelo fofinho uma nas outras. Eu não as ouço - as portas e janelas estão trancadas. E a neve cai sem parar...


Esta talvez seja uma foto perfeita para você, aliás, para muitos escritores: sentar-se à frente de uma janela, lá fora com neve, você com tantos casacos que perdeu as contas, e se deixar levar pelas teclas barulhentas da máquina de escrever. A minha nem é tanto - comprei naquele brechó que fomos um dia. Lembra? Ela é vermelhinha e pequena. Uma beleza.

Eu não sei como explicar, acho que isso só pode ser maior que eu. Você sabe que nunca fui tão boa quanto você nas letras - o meu ramo é mesmo aquele chato e jurídico. Mas o problema é que meu coração bate tão alto que não consigo controlar meus dedos, e só vou falando do quanto queria que você estivesse aqui para cutir esse espetáculo gelado que está lá fora, enquanto o floquinho de neve cai lentamente pela janela. Seria tão bom se você estivesse aqui, amiga, e assim me ajudaria em mil dúvidas que tenho quando escrevo - principalmente assim, despretensiosamente.

Com certeza, se você estivesse aqui, estaria agora batucando nessa máquina, prolongando seu próximo livro ou quem sabe escrevendo contos que me fazem mergulhar. Sinto tanta sede de te ler que fico procurando, em meio a essa neve toda de dezembro, algum livro que seja parecido com o seu. Que tenha o mesmo jeitinho miúdo e romântico de ser - e que, ainda sim, com um leve toque de sensualidade. Afinal, você sabe que sempre escreveu sobre o que você é, nada mais do que isso - mesmo que passasse horas conversando comigo sobre seus novos personagens. Eles nada mais eram do que personificações suas. E agora você me deixa sem eles, sem você, só comigo e toda minha formalidade.

Sinto que estou sendo sentimental demais, você sabe, isso não é de mim. Mas, de que adianta tentar remediar uma coisa que já está? Afinal, a saudade é tamanha que não consigo controlar. E meus dedos apenas vagam por essas páginas em branco, procurando algum sentido, alguma frase, alguma palavra que traduza a minha saudade por você. Porque só esse floquinho de neve caindo aqui da janela, e os gritos e risadas e brincadeiras das crianças lá fora - agora posso ouvir já que abri a porta - e todo esse clima frio e branco me faz lembrar você e suas escrituras, seus livros, seus contos e personagens. É você que eu procuro e não adianta tentar te achar em qualquer outro lugar, tudo aqui é frio demais, lânguido demais, distante demais - ninguém tem esse seu jeitinho afetuoso e lindo de ser.

Parece até que estou me declarando. Mas é que realmente sinto falta da sua amizade, do seu jeito cuidadoso e ao mesmo tempo tão destrambelhado. Tem lógica isso? Sinto falta até do seu jeito de arrumar as coisas, de se vestir, até de rir. Às vezes estou andando na rua e escuto sua risadinha abafada, às vezes vejo num espelho seu sorriso silencioso, mas tão verdadeiro. As ruas ficam até um pouco mais quentes quando lembro disso, quando lembro de você.

Olha, me desculpa se estou sendo piegas demais. É que hoje alguma coisa aconteceu, não sei se foi esse floquinho caindo na janela, ou as crianças lá fora, ou só a saudade do seu calor no meio dessa neve tão gelada, mas estou mesmo com saudades, e acho que vou morrer se você não aparecer logo por aqui - e poder usufruir livremente dessa máquina vermelhinha de escrever, diante dessa neve que inunda tudo e parece não mais ter fim.

Acho que já me alonguei demais. Por fim, o de sempre: Amo você e estou morrendo de saudades.

Vem logo.

Com carinho,
Luisa



--
1- Me façam prometer de que não vou mais dizer que estou deixando o blog. Nunca consigo. Sempre que falo que tô dando um tempo, vem a saudade, aquela vontade louca de escrever... e aí, bem, é isso.
2 - Eu achei a foto dessa máquina de escrever em algum lugar que não lembro onde, então assim que achar, postarei.

22 comentários:

D i c a disse...

Todos nós somos um pouco Sofia, um pouco Luisa.. (nomes lindos!)
Falar de saudade é bonito, mas bem difícil sentir e viver com ela dentro do peito.

Lindo o texto!

Eloisa disse...

Querida, diga-me quantos anos tem?
Sua imaginação para a escrita é magnifica!
Virei aqui mais vezes para que você nunca nos prive de tamanho privilegio que é, apreciar tua escrita.

Meu beijo.

Emi disse...

Eu consegui visualizar o floquinho de neve :)
amei a carta,o texto está bem escrito.
beijos

Katrina disse...

Tem um ar de natal, um ar nostálgico da infância e um sabor doce em cada frase, aliás, em cada parágrafo um suspiro.
Serei piegas, texto lindo
=*

Natália Corrêa disse...

Eu ando assim como Luisa.
mas em vez de neve, tem sol. Muito sol torrando minhas células já mortas, que sempre (e só) se renovam na presença da minha Sofia, que está tão longe...

Não sei se eu já disse isso, se não disse, pensei, e se disse, me perdoe por ser repetitiva.
Mas eu gosto muito do que você escreve. Não apenas de como você escreve, mas sobre o que você escreve. Você tira poesia de situações tão casuais e reais... que parece que seus dedos pertencem um pouquinho a cada um que lê, e, em particular, pertencem muito a mim.

=)

Vladir Duarte disse...

Adorei o texto. A atmosfera simples e nostálgica criada dá um charme especial...

Valeu.

Layz Costa disse...

Que texto maravilhoso!
É incrível como você nos transporta pra onde quer, talentosíssima! =)

Jéssica, mais uma vez, você vai looonge!
beijo =*

Vanessa M. disse...

Saudade
*.*
Cheiro bom nas palavras...

Tatiane Trajano disse...

Prometa-nos que não vai nos privar de te ler!

Floquinhos de neve, imaginei eles agora.
Faz frio lá fora e aqui dentro, queimo de saudades.

Muito lindo!

beijo-beijo

Emi disse...

ahhh obrigadaa :)

Carol Rodrigues disse...

Visualizei o floquinho de neve, a maquina de escrever, imaginei como são os escritos da Sofia...

Incrível!
Lindo, doce.. .adorei o texto!
Me sinto invadindo a correspondência alheia =D

Ps: te add no twitter

ps 2: vê se para de dizer q vai abandonar o blog

;)

Kari disse...

É isso mesmo! Para de dizer que vai embora, moçinha!

E ei... Que linda carta!!! Senti até o friozinho da neve (que imagino como deve ser) entrar pela porta aberta... Senti a angústia da saudade... Lindo demais!!!!!

Beijão pra tu

Gabriela M. disse...

eu gosto de floquinhos de neve ;)

fazia tempo que eu não vinha aqui.
;**

~~~~

prometa nunca mais dizer que vai abandonar o blog!!! já
*eu também não consigo largar o osso hahahaahah :D

maria fernanda; disse...

Menina do céu!

Havia tempo demais que eu não aparecia aqui e fiquei feliz com a tua visita por lá. E fiquei boba com a tua escrita, a carta tá envolvente de cima à baixo, senti frio ao imaginar a neve e desejei estar ali, naquela casinha repleta de nostalgia e uma saudade sem fim.

lindo, lindo, lindo.

Vini Manfio disse...

sempre tão ricos em detalhes
em sentimentos


sempre textos puros
sem qualquer... como direi

enfim

leio
e releio

e sei que ainda faltam algumas coisas a serem percebidas
tamanha complexidade

e eu gosto do jeito que você escreve

Rodrigo Oliveira disse...

q bem bonitinho isso aqui. curti o floquinho de neve :)
A sobre o comentário lá no blog, tá tudo bem em se sentir mal, sim. O importante, eu acho, é que a gente ainda sinta.
:*

Rodrigo Oliveira disse...

q bem bonitinho isso aqui. curti o floquinho de neve :)
A sobre o comentário lá no blog, tá tudo bem em se sentir mal, sim. O importante, eu acho, é que a gente ainda sinta.
:*

Kuriozza disse...

Dá pra sentir essa saudade embalada pelo barulho das teclas da máquina vermelha.

Adorei o texto.
=)

Kari disse...

Respondendo a tua pergunta:

Jéssica, ajuda sim a conhecer pessoas. Eu conheci o meu namorado atravéz do blog e, não fosse o MSN, não sei como estaríamos juntos.
Mas é isso que estou falando...

Que usar para quem está distante é a função e não usar para quem podemos ligar (afinal, ligação local é pouquinho, né?).

Hoje, vemos pessoas que moram no mesmo edifício, conversando pelo MSN, ao invés de irem para o térrio conversar.

Claro que eu acho magnífico o surgimento da internet, mas acho que exageramos um pouco no seu uso.

Beijos

Ane disse...

Coisa linda é saudade de amigo =).

Victor Carvalho disse...

Mais bonitinho que o seu texto são os sentimentos da Luisa que, por sinal, não deveria nunca ter ido pro lado jurídico e chato da vida.

Leon K. Nunes disse...

Ah, um dia quero experimentar essa experiência de ser eu o escritor sentado numa máquina de escrever - já escrevi alguns contos na máquina, embora seja bem desajeitado nela - diante de uma janela que me separa da nevada lá fora. O texto fico bem como carta, bem como lembrança, bem como cumprimento e reverência. Só acho que a Luisa poderia ter se alongado um pouco mais...... que ela venha outras vezes. Um beijo.