quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Adultos

Quando eu era pequena achava que os adultos não tinham sentimentos. Eles não se apaixonavam, não namoravam, não riam nem tinham orgasmos. Aliás, quando primeiramente descobri o que era sexo, foi vendo os filmes na televisão, e sempre achei que só os homens tinham orgasmos. As mulheres só serviam de tipo "porto seguro", um lugar quentinho para colocar o órgão de reprodução masculina. Por isso que as mulheres engravidavam e os homens não - afinal, eram eles que colocavam o bebê lá dentro. Bem, enfim, eu achava que adultos não sentiam nada - só viviam para trabalhar, sustentar os filhos e dormir. E colocar bebês nas barrigas das mulheres.

Afinal, como eu podia ser tão intensa, sentir tudo a minha volta, agir muito mais instintivamente e emocionalmente do que de modo racional, e ninguém mais ser assim? A minha mãe era tão fria, eu sempre voltava pra casa chorando por causa de um olhar, uma risada, um tapa, qualquer coisinha. E ela sempre ficava naquela seriedade toda. Não sentia nada. Então passei a ver que o "adulto" era algo muito acima da minha concepção, algo técnico, como matemática, frio, exato, apenas números escritos no papel que era o mundo. No final, aquilo só aumentava a minha intensidade, porque eu tentava me prender mas não conseguia. Então voltava pra casa chorando e mamãe só ficava lá, calada, fria, impassível.

E também não entendia porque eles sempre se controlavam. Eu sempre estava fervilhando, com os sentimentos à mostra, para todo mundo ver. Eu era transparente. Mas os adultos não. Eles sempre estava lá, escondidos, empacotados em suas roupas grandes demais, em seus paletós e caras sérias. Ninguém sorria. E eu voltava para casa derramando lágrimas enquanto lá fora os pais dos meus vizinhos os recolhiam, com caras impassíveis, cansadas ou apenas adultas.

Até que comecei a assistir mais filmes que diziam isso. Os adultos nada mais eram que impassíveis, apenas vivendo no mundo para fazer o dinheiro circular. Apenas trabalhando, saindo cedo e chegando tarde, sem dar o mínimo de atenção ao que lhes rodeava. Acho que por isso que nunca fui consumista, de entrar num shopping e comprar horrores só para me sentir melhor (conheço pessoas assim e nunca entendi como é que isso lhes faz tão bem). Eu não comprava para me sentir melhor porque eu achava que estaria sendo igual aos adultos que eu conhecia, ou pensava que conhecia, ou analisava - mesmo que não lembre de nada. Eu achava que estava sendo igualzinha a eles, somente gastando o dinheiro que consegui com o meu trabalho. Nada mais. Nenhum sentimento, nenhum apego, nada.

Demorei para entender que, no final das contas, as pessoas só estão fugindo de si mesmas e por isso fingem que são cultas e frias, para não ter de se apegarem a ninguém por saber que, a qualquer momento, aquela pessoa pode ir embora. Ou pode lhe trazer problemas piores. Então, se apegam as coisas, ao material, às compras, só porque supostamente demoram mais para acabar. Trabalham para ganhar. E vivem para gastar. Mal sabem que elas próprias tem fim, e até mesmo uma coisa comprada num shopping pode lhes trazer problemas ou acabar.

No final, todos nós só precisamos de uma dose de amor, de intensidade, aquela mesma que eu destilava tanto nos meus choros quando era criança. E ainda destilo, vez por outra, com mais frequência do que eu queria.

A gente só precisa de amor. Ou um livro gostoso num fim de tarde chuvoso. Ou um filme de terror.

No final, é tudo sobre o amor. E estão todos correndo, se escondendo, fugindo dele.

(e eu nunca vou entender o porquê)

23 comentários:

Gaby Almeida disse...

Menina como sempre amei esse textinho... me fez pensar no tipo de adulta que sou (se é que já sou uma)... com o passar do tempo me tornei fria, consumista e tento ignorar o amor, mas esse bendito sempre me pega de jeito, seja com um amigo, um novo romance, um irmão... e eu sempre volto a ser aquela menina que brinca, rir, chora e admite seus sentimentos apesar do medo de faze-lo.

Bruna de Sousa disse...

No final tudo é o amor mesmo.
Ele é o início, o meio e o fim.
As pessoas se fecham por causa do medo. Medo de amar, medo da perda, da exposição...
Quanto maior a exposição, maior a crítica. E quando crescem, os adultos se dão conta disso, e por esse motivo, alguma vezes, acabam fechando a porta da expontaneidade. A mesma que jorra dos olhos de qualquer criança.

Gostei do seu blog.
Parabéns pelos belos textos.

Vou te seguir, tudo bem?

Att,

Bruna de Sousa

Vladir Duarte disse...

Gostei de tudo que li, você tem mesmo razão. Acho até que, de vez em quando, também fico fugindo um pouco de mim e do que sinto... Mas, no final, como você mesmo disse, é tudo sobre o amor. Apenas isso!

Ane disse...

Virei mesmo medrosa,depois de adulta.Agora,antes de me 'entregar' sempre penso,na possibilidade de sofrer mais pra frente.É triste isso.

beeijos

Dauri Batisti disse...

adorei esta tríade: amor, livro gostoso num fim de tarde chuvo, filme de terror. Eu dispenso o filme de terror, escolho outro.

Um beijo.

patyemo disse...

Adorei o seu blog,e voce tbm.
Eu tbm reclamo as vezes da forma como os adultos são sempre tão frios...imutáveis.
Adorei mesmo o blog.
Mil bjuxxxx...xau!!!!!

Katrina disse...

Sabe de uma coisa jéssica? Foi uma das coisas, de tantas que eu já li, que mais me caíram como uma luva. Obrigada por ter me dado a oportunidade de ler.

Tatiane Trajano disse...

Eu tb não entendo muito o pq as pessoas insistem em fugir do amor e até de si mesma.
Ser um adulto vazio é tão ruim...
=/

Muito boas essas palavras, gostei de ler.

Beijos

Letras disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Thay disse...

"fingem que são cultas e frias, para não ter de se apegarem a ninguém por saber que, a qualquer momento, aquela pessoa pode ir embora."

Muito lindo esse trecho...
Parabéns!

Steferson Z. Roseiro disse...

Quando eu me aproximei do fim do texto, eu pensei "Poutz! A Jé perdeu o fio da meada e começou a fazer do texto uma matéria da Super."
Até que cheguei aos dois (três se contarmos com o que final entre parenteses) últimos parágrafos. E, ali, já voltava para um texto - ainda que um desabafo/defesa de causa - e, então, valia à pena.

Gostei. Não vou dizer que é diferente do que você escreve, estaria mentindo (e eu estou numa onda de sinceridade maior que eu poderia imaginar, então, mil desculpas). Todavia, ainda assim, agradável.

Is it all about love?

Fábio Ricardo disse...

E os adultos nao são exatamente assim? Na boa, às acho que é bem isso mesmo.

Leon K. Nunes disse...

As pessoas são assim mesmo, quando adultos apenas exprimem sua natureza mais desanimadora: são seres assépticos, sem emoção, sem drama, lógicos demais. Consigo ver isso neles. E consigo perceber nuances disso até nos mais novos, de uma maneira que quase dá para prever o que ela se tornará no futuro. Tento não ser mais analítico demais em relação às pessoas, isso já me trouxe muitos problemas no passado, e me distanciou muito delas. Mas, no final das contas, somos menos enigma do que pensamos....

Um beijo..... perdoe a ausência... comentei nos outros textos dessa página para tirar o atraso... até logo.

Steferson Z. Roseiro disse...

Ah. Faz sentido (ou pelo menos, hoje faz sentido para mim, e, como você bem lembra, eu sou o tipo de pessoa "feliz" hoje, descrente amanhã, ignorante ontem e uma icógnita para semana que vem). O fato da falta de amor ser a explicação, digo.

Todavia, uma pergunta que acaba de me abater - e que eu nunca tive coragem de perguntar a "um adulto" - quando duas pessoas se casam... elas o fazem por amor? Você acredita de verdade nisso? Ou talvez apenas por... ser mais confortável?
Pergunta clássica, verdade, mas, fazendo ela a você, talvez a resposta não seja assim tão retórica.

E, óbvio, se minha sinceridade lhe agrada, a recíproca é verdadeira.

Steferson Z. Roseiro disse...

"Parece até que é mais bonito dizer que é casado." - Perfeito.


(Aqui está o espírito que eu esperava, e decididamente, adorei achá-lo em uma frase tão simples e foda, Jé. Talvez - um "talvez" muito vago - eu venha a escrever um conto e usar essa frase, se me permitir, com seus créditos, óbviamente.)

Mas, sim. É. Eu também não sei como é a questão "casório". A começar que eu descobri esse ano que quando meus pais se casaram, mamãe já estava grávida de mim. Posso dizer, com uma certeza duvidável, que meus pais foram felizes casados (acho que foi o primeiro caso de "até que a morte os separe" que eu presenciei, então, considero algo).
Todavia, ainda assim, me bate aquela sensação de que, casamento pode até ter algo, à princípio, todavia, como tudo, você enjoa daquele hábito. Sim, porque viver com alguém, em certo momento, acaba virando um pedaço de você. E, a questão é: todo mundo quer fazer plástica em algo.
Isso que me soa estranho.

Ou talvez mais estranho ainda seja eu estar falando sobre isso (uma vez que a percentagem de eu mandar um convite de meu casamento para qualquer pessoa seja proporcional a chance de eu e você passarmos as férias em Atlantis).



Momento de saudade (embora eu e você já tenhamos nos acostumado a distância emocional que ambos usamos).
Beijos, Jéssica ;*

Bruna Bianconi disse...

Concordo com cada letra desse texto, fazia tempo que não passava por aqui e dei de cara com um grande texto.
Eu tenho raiva dos adultos por isso sabia? Falei isso hoje, sei lá, pra mim são um bando de merda, mas temo que esse seja o futuro de todos nós :/

Beijos

B. disse...

Sabe, eu ODEIO muito você, Jess. Você simplesmente sai escrevendo essas coisas fodas e não lembra de comunicar a sua amiga mais foda (oi, eu, desculpa) *-* Tipo, você sabe que sou louca pelas as coisas que você escreve e você sempre me surpreende. Amo-te, guria mais linda da minha vida (L)

Ane disse...

Eu também tenho medo dessa coisa de internet/telefone,embora já tenha acontecido comigo,com sucesso rs,maaas nada comparado com a história que eu contei.

É que os nomes são fictícios ;D.

beeijos ;**

O Lobo-Mau disse...

me surpreendeu... escreve melhor do q eu imaginei. otimo senso critico.

Fillipp Cabral disse...

Como diz o Paul McCartney: "All we need is love".
ahahhaa! ;D


Adoro perder alguns minutos desperdiçados no trabalho lendo seu blog!

abração!

Heloísa Vilela disse...

Eu sempre fui fascinada pelo mundo dos adultos.
Engraçado, vou crescendo, e agora sonho em voltar a ter 10 anos...

Kuriozza disse...

Um dia fiquei assustada quando percebi a minha sombra, ao entardecer... Era a sombra de uma criança saindo do trabalho.

Ótimo texto.
=)

Rafael disse...

Eu, particularmente, ainda queria ter a inocência de uma criança, mas na sociedade em que vivemos, as vezes, se tem que crescer antes da hora e pra mim até que foi divertido porque encontrei muitas coisas e pessoas interessantes no meio da estrada. =D