domingo, 10 de janeiro de 2010

Não me dê

Me dê um mês, e eu crio uma história. Me dê um dia que eu faço seu enredo. Me dê um ano, que eu escrevo a mais bela crônica dos meses. Me dê uma cor, um cheiro, uma fotografia, um desenho, que eu faço mais de dez mil contos. Me dê uma hora, um tempo, um evento, que eu crio a capa mais bonita do nosso livro. Me dê uma criança, e eu faço de mim o melhor palhaço que já existiu. Me dê um circo, que eu crio a melhor história de amor. Me dê um orfanato, que eu escrevo o melhor thriller que já existiu. Me dê um parque de diversões, que eu te digo, eu te conto a história mais horripilante de serial killer. Me dê uma cena de amor, que eu construo nosso romance. Me dê uma festa, que eu crio os personagens. E te coloco no meio.

Só não me dê o cheiro do seu cabelo quando acorda, você vestindo minha camisa, sua carinha de sono. Não me dê nossos pés roçando, enquanto eu agarro sua cintura com força, te protegendo de um filme de terror. Não me dê um amanhecer na praia, nem um entardecer na cachoeira, muito menos um piquenique na grama. Não me faça ficar perto de você mais do que um minuto sem reparar em qualquer detalhe seu. Não me dê seu sorriso miraculoso. Não me faça perder meus dedos nos cachos do seu cabelo, nem na cor dos seus olhos, nem nas curvas do seu corpo. Não me dê remédios quando a ressaca de vinho bater, nem me faça ter um motivo para acordar todos os dias de manhã e sair de casa cantarolando canções que já ninguém mais ouve. Não me dê seu microssistem. Nem seu microondas. Não me dê seu carinho. Não me dê sua voz. Não me dê seu rosto. Não me dê seu amor. Não me dê você para que eu escreva. Não me faça criar de você um personagem de um conto, uma crônica ou um livro qualquer. Por que você não se escreve, não se detalha, não se conta. Você foi feita para se viver.

E eu quero viver.

Com.

Você.

21 comentários:

Maria Fernanda Probst disse...

Adorei a declaração direta e nas entrelinhas, o jogo das palavras, a diferença dos parágrafos e os suspiros derramados.

Beijo doce ;*

Pâmela Marques. disse...

Ei,
Deu uma vontade imensa de chorar com isso. Porque é tudo o que eu tenho engasgado em mim, na minha garganta, querendo soltar. Me livrar.
Tuas palavras cairam em mim como uma luva.

Rebeca Postigo disse...

Uau!!!
Amei!!!
Acho que são as únicas palavras que consigo pensar agora...

Bjs

Mulher na Polícia disse...

É melhor que não dê mesmo...

Mas... tem coisa melhor que isso?

Menina!!! Você detonou!!! Queria ler isso todo dia escrito diferente.

;)

Vladir Duarte disse...

Sensacional! Muito bom mesmo...

Steferson Z. Roseiro disse...

Sabe tudo que eu disse sobre seu último texto? Aqueles monte de vezes que eu dei a entender que eu passei a não ligar para o amor porque eu simplesmente não consigo recuperar o amor de quem eu amei? E aquele monte de outro blá-blá-blá que eu disse elogiando uns textos, ao mesmo tempo que eu punha algumas críticas que poderiam ser corrigidas?

Então, depois eu terei que comentar de novo para o caso de eu achar uma crítica depois da terceira vez de leitura. Já li duas vezes e, decididamente, foi maravilhosos.

"Me dê uma cena de amor, que eu construo nosso romance." (mas) "Não me dê você para que eu escreva. Não me faça criar de você um personagem de um conto, uma crônica ou um livro qualquer."

Estão aí as duas partes que eu mais gostei (sabe que é essencial para mim ressaltar essas partes).

Amei de verdade.
E já vou reler ;*

Natália Corrêa disse...

Eu senti uma invejinha desse texto. Sabe quando você lê algo que poderia ser seu? Eu poderia ter escrito isso, se você não o tivesse feito por mim. Mas você o fez tão bem que eu fico feliz por saber que alguém sente ou entende essa coisa que eu sinto; de querer ter uma história real, em vez de mais um conto-inventado-por-mim, sem fada pra contar. Eu quero viver meu amor e não inventá-lo.

(César não me mostrou seu comentário no blog dele - acho que esqueceu-, mas eu li sozinha =P vou mudar a forma de comentário no meu outro blog, colocar pra abrir em outra janela... será que é esse o problema? =x)

Beijos:*
Adoro suas histórias *-*

Steferson Z. Roseiro disse...

Jé, só para constar: você é a outra única pessoa (além do Lucas) que eu passei um longo tempo sem falar e, mesmo assim, eu preciso voltar de vez em quando para falar, para dizer "oi", para saber como algumas coisas estão e coisas assim. Então, "saudade" não é algo que eu precise expressar; eu me venço apenas para trocar uns comentários com você e para criar coragem de responder de responder de vez em quando não apenas sobre o que eu finjo (por exemplo, agora, que eu deixo de falar do texto para falar-falar).

Bom, agora que mencionou, se nossos personagens fossem criados no mundo, teríamos uma nova China. Se tirássemos personagens que conhecêssemos para por em nossos textos, reduziríamos a população mundial pela metade.

Só que, como você, não tem alguém que eu "não escreva", ultimamente. Então, acho que o que nos resta é escrever.

O que, graças a deus, não é algo que perdemos.

Mesmo que eu seja o único a ainda entender meus textos (UHAEUHAU).

Ainda te amo, Jé, apenas tenho sérios problemas em aceitar que eu preciso de outras pessoas ao meu lado para viver.

;**

Fábio Ricardo disse...

Já me ganhou logo no primeiro parágrafo. E fechou em grande estilo. Um dos belos textos que li nesse começo de ano.

ALF disse...

Uau...

Não me dê textos tão lindos como esse, que é capaz de eu infartar de tanta admiração.

Maravilhoso cada linha. Tão doce, tão amoroso. Tem sentimento intenso. Tem amor.

Coisa linda.
Gostei muito.
:)

Beijos

Tatiane Trajano disse...

Viver alguém... Isso é mágico!
E essas tuas palavras, amolecem qualquer coração.

Belo, de fato.

=*

Vanessa M. disse...

Viva e viva intenso, oras!!

disse...

Amei. Suspirei.
Viva. Escreva. Concilie.

Beijos.

Carolzinha Sena disse...

aquilo que vem acompanhado do 'não' é o que mais queremos.

gabriela m. disse...

textos assim me derretem toda, sabe?

Kari disse...

Amei o jeito de contar. De se declarar. De amar. E de viver....

Amei cada detalhe.

Beijo

Juliana Marques. disse...

eu amei o texto. é lindo.

:)

Fillipp Cabral disse...

Garanto ser mais um de seus fãs... Mas acredito ser o maior deles!

Jéssicaaaaaa!! Saudades de vc!! Mas pelo menos te vi na praia naquele dia, neh? :P

bjo querida! Suas histórias sempre me faz diferente a cada momento!

...e quando escrever um livro, não tenho dúvidas q a coitada da Stephanie Meyer vai pedir umas dicas pra vc! :P

Maycon Queiroz disse...

Este comentário não se refere a este post exclusivamente, ele se expande para todo o blog.
Como nada tenho a fazer, ou talvez isso se chame fazer algo, eu estou lendo blog de pessoas que escrevem com intenção literária. Ao analisar seu perfil vejo que você é nova e tem muito a crescer/aprender.
Você é muito imaginativa, como este é o primeiro estágio para um futuro escritor,você já o superou o que significa que está no caminho certo.
Assim como você sou estudante. Assim como você sou um sonhador, vivo vendo coisas. Foi obra do acaso eu ler seu blog, mas isso não significa que eu deva deixá-lo de lado.
Seria interessante poder conversar com você. Tenho certeza que uma troca de mensagens entre mim e você contribuirá muito para a minha e a sua formação na literatura.
Como se diz por aí, temos poucos leitores no Brasil e devemos lapidar os já existentes para que possamos conquistar novos.
Deixo meu e-mail (jahmaycon@yahoo.com.br) você me escrever se quiser, fica a seu critério decidir.
Sem mais, abraços.

Leon K. Nunes disse...

E aí Jéssica, há quanto tempo, andei meio negligente com minha vida virtual (deve ser a negligência da vida real contaminando-a), a ponto de andar visitando poucos blogs e postando igualmente pouco, mas creio que estou conseguindo retomar o ritmo novamente, ando com mais ânimo para escrever nos últimos tempos depois dumas viagens de moto que fiz - meu passatempo favorito -, passei até em João Pessoa, quase fazia contato contigo pra gente trocar um papo aí numa lanchonete que fosse, só não o fiz porque tive lá (aí) apenas de passagem, tava indo para mais distante, Maceió, Aracaju.... mas é bom revê-la por aqui, eu li alguns textos do teu outro blog assim que fizesse menção a ele naquele comentário, de certo modo achei que fizesse a coisa certa em liberá-lo, a vida transcrita em arte não merece o silêncio e a monotonia das senhas e bloqueios virtuais, como as pérolas literárias que até hoje se perdem, escondidas deliberadamente nas gavetas e restritas à crítica roedora dos ratos... eu ia até dizer que por ele você permanece afinada com a escrita, mas agora que voltei ao Contos no Papel, posso dizer que por aqui tu também tem mantido o mesmo jeito com a coisa, esse texto é sensível sem ser, é romântico sem ser, e talvez ele venha a ser tais coisas justo por fugir dessas pretensões de sê-las, é uma conquista que vem com a leviandade, com o desatino, e isso é um grande mérito, pelo menos para mim que observo isso em você e em alguns dos meus escritores favoritos que conseguiram isso muito bem; essa veia eu não tenho, mas sei apreciar nos demais.

Um beijo.

KahuêMoraes disse...

amei a maneira como você escreve, como representa o que pensa e o que eu penso x) me tornei teu fã!!